Obesidade infantil: conheça suas causas e consequências e saiba como tratá-la

A obesidade infantil pode fazer com que a criança desenvolva doenças crônicas comuns apenas em pessoas com mais de 50 anos
A obesidade infantil pode fazer com que a criança desenvolva doenças crônicas comuns apenas em pessoas com mais de 50 anos
Michelle Lage

Consultor:

Michelle Lage

Michelle Lage (CRP 5/53128) é formada em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e faz formação em terapia reichiana

Infelizmente, dados do Ministério da Saúde mostram que a obesidade infantil no Brasil vem crescendo. E se o excesso de peso já é um problema quando se trata de adultos, em relação às crianças ele é ainda mais perigoso, pois é justamente nos primeiros anos de vida que é mais importante se alimentar bem para crescer de forma saudável. O grande problema é que muitas vezes os pequenos são responsabilizados pelo aumento de peso, quando na verdade quem deve cuidar da sua dieta é um adulto responsável.

Causas da obesidade infantil

Não há apenas um fator que possa ser considerado o grande causador da obesidade infantil, pois se fosse assim seria mais fácil eliminar esse mal pela raiz. E embora muita gente associe apenas o consumo exacerbado de alimentos a esse problema, na verdade ele pode começar já no período da amamentação, como explica a nutricionista especialista em obesidade Sheila Basso.

"O tempo de aleitamento materno exclusivo (sem água, chá e/ou outro leite) está abaixo do recomendado no Brasil. Isso faz com que a alimentação complementar ocorra de forma precoce e incorreta, com a introdução de farinhas, açúcares e leite de vaca integral, antes do tempo", afirma.

Aliás, a família é grande responsável por fazer a criança comer de forma inadequada, já que os hábitos alimentares são adquiridos em casa. Portanto, se os pais comem apenas alimentos ultraprocessados e não consomem frutas, verduras e legumes dificilmente a criança irá adquirir gosto por orgânicos. Isso sem falar, claro, na prática de exercícios físicos, que permite que adultos e crianças não apenas percam peso como também tenham mais disposição e um sistema imunológico mais resistente a doenças. E se os pais não incentivam os filhos a praticar esportes eles provavelmente crescerão sedentários.

Mas essas razões não são as únicas que podem gerar a obesidade infantil, como lembra a psicóloga Michelle Lage. "Além de fatores que costumam entrar na discussão, como a genética, a educação nutricional e o incentivo à prática de exercícios físicos, outros que são deixados de lado devem ser considerados. Entre eles temos a educação emocional e psicológica da criança e dos pais e a sua situação socioeconômica e psicossocial", defende.

Consequências da obesidade infantil

O excesso de peso é considerado por muitos apenas um problema estético, mas ele nada mais é do que o reflexo de uma vida nada saudável. Só que muitas vezes os responsáveis pela criança ou pelo adolescente não percebem que deixá-lo ter uma vida sedentária e com uma alimentação pobre em vitaminas e minerais pode acarretar em problemas de saúde irreversíveis ainda na juventude.

"O principal dano da obesidade é o desenvolvimento precoce de doenças crônicas, como as doenças cardiovasculares, diabetes mellitus tipo 2, hipertensão arterial, dislipidemia e alterações hepáticas, doenças normalmente observadas em adultos a partir dos 50 ou 60 anos", diz Sheila Basso. "Além disso, o dano psicológico causado pelo excesso de peso pode trazer transtornos graves para crianças e adolescentes, como depressão, vergonha da autoimagem corporal, baixo nível de autoestima, não aceitação social e consequente isolamento social".

Diagnóstico deve ser preciso

Antes de tomar qualquer atitude é preciso saber se a criança realmente está obesa ou se apenas está acima do peso por ter um biotipo assim. O Índice de Massa Corporal (IMC) costuma ser aplicado para fazer um diagnóstico superficial, mas Sheila Basso ressalta que o utilizado por adultos não deve ser mesmo aplicado em crianças, pois o resultado apresentado não será compatível com a realidade. Para isso é preciso buscar dados fornecidos pelo Ministério da Saúde, que vão mostrar a curva do IMC e suas variações do início da vida até os 19 anos. De qualquer forma, caso exista a suspeita de que a criança não está dentro de seu peso normal é preciso em um primeiro momento consultar um pediatra para ter um diagnóstico mais preciso.

Compulsão pode ser a responsável pelo aumento de peso

É importante saber quais fatores levaram a criança a ficar com tanto peso. Afinal, muitas vezes o problema não é a alimentação que os responsáveis oferecem, mas sim a compulsão. E assim como ocorre com a obesidade infantil, suas causas são diversas, ainda mais porque muitas vezes ela é mascarada pelos próprios pais, como lembra a psicóloga Michelle Lage.

"Além da ingestão excessiva de alimentos, estados afetivos são aliados do comer compulsivo, como tristeza, vergonha, culpa, além de angústia acentuada. Outra observação que se faz é o desenvolvimento dessa patologia associada a famílias que apresentam algum tipo de transtorno afetivo, de personalidade ou de dependência de substâncias. Assim, não há apenas uma forma de tratar a compulsão alimentar infantil. O ideal é que isso seja feito por uma equipe multiprofissional composta por nutricionista, psicólogo e médico para que o problema seja olhado e analisado por diferentes ângulos", afirma.

Como tratar a obesidade infantil

Embora exista o fator psicológico, de uma forma geral a melhor forma de tratar a obesidade infantil é através da mudança de hábitos. E isso é algo que deve partir da família, que precisa incentivar a prática de exercícios físicos e passar a oferecer uma alimentação mais saudável para a criança. Mais do que isso: a dieta deve ser feita por todos os seus integrantes, pois assim a criança em questão se sentirá mais motivada a perder peso.

"Programas de tratamento de crianças obesas que incluem múltiplos membros da família têm mais sucesso a longo prazo que programas que incluem somente a restrição alimentar da criança obesa", diz Sheila Basso. A nutricionista também destaca que as mudanças devem ser estimuladas, e não impostas. "Proibir a ingestão e lanches, geralmente substitutos do jantar, pode ser uma atitude infrutífera. As propostas de educação nutricional, quando incluem atividades práticas, permite que as crianças e adolescentes estabeleçam contato com o alimento e se tornem responsáveis pelos seus hábitos", acrescenta.

Em resumo, é através das pequenas atitudes que as crianças obesas poderão perder peso. Sheila Basso afirma que a mudança de hábito começa no café da manhã, que deve conter cereais integrais sem a adição de açúcares. As refeições também devem ter legumes e verduras, e as frutas podem ser entregues como sobremesa. Refrigerantes e sucos industrializados precisam ser deixados de lado e dar lugar a água e a sucos naturais. Alimentos muito gordurosos ou doces devem sair da lista de compras da família, pois se ele não está na dispensa a criança não terá como comer. Aliás, até a festa infantil, feita para celebrar o aniversário dela, pode ser mais saudável.

Por fim, é preciso incentivá-la a ser mais ativa, seja brincando ao ar livre, andando de bicicleta, levando o cachorro para passear ou praticando algum esporte. Já atividades sedentárias, como ver TV, ficar no computador e jogar videogame devem ser desencorajadas. Mas se a família sair toda junta vai ser muito mais fácil convencer a criança a largar os eletrônicos e passar a se movimentar. "Como outros ambientes socialmente influentes, o núcleo familiar interage com os fatores genéticos e psicológicos que podem predispor à obesidade infantil. A família é responsável pela formação do comportamento alimentar da criança através de uma aprendizagem social, e é papel principalmente dela educar a criança neste sentido", afirma Michelle Lage.

*Sheila Basso (CRN 21.557) é nutricionista com especialização em Obesidade, Emagrecimento e Saúde pela pela Universidade Federal de São Paulo.

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