Já provou de novo algo que não gosta? Saiba como a mente pode estar te sabotando

É possível que você não esteja comendo alimentos deliciosos simplesmente porque repete para si mesmo há anos que não gosta deles
É possível que você não esteja comendo alimentos deliciosos simplesmente porque repete para si mesmo há anos que não gosta deles

É muito comum encontrar crianças que não gostam de comer determinado alimento, seja pela cor, sabor ou mesmo por acharem eles nada atraentes. Mas aí a pessoa cresce e esse paladar muda, não é mesmo? Pois é, nem sempre. Algumas pessoas mantêm o hábito de não consumir algo por terem gravado bem forte na memória que não gostam de alguns alimentos, e nada irá convencê-las do contrário. Mas não seria essa uma autossabotagem?

Sua mente pode estar enganando você

Acredite se quiser, mas é possível que você goste sim desses alimentos que diz odiar - e isso nada tem a ver com uma mudança de paladar, viu? Quem explica é o psiquiatra argentino Lucas Raspall em seu TED Talks (série de conferências cujo objetivo é compartilhar "ideias que merecem ser disseminadas", como afirma o seu slogan).

O médico começa sua apresentação contando que ficou pelo menos 10 anos sem tomar sorvete, embora antes gostasse da sobremesa. O que mudou? A resposta tem mais ver com uma autossabotagem do seu cérebro do que qualquer outra coisa. Para ele, a mente é como um editor, garantindo que a história seja contada em uma sequência lógica e sem erros, como faz um editor de livros. A grande questão é que, com o tempo, as histórias se transformam em verdades, que por sua vez vão nos definir.

"Um dia falamos algo de um jeito e o editor transforma isso em uma verdade", afirma Lucas Raspall em seu TED Talks. "E a partir daí seu trabalho vai ser um só: sustentar a coerência. Desse momento em diante nós vamos passar um tempo reforçando o que dizemos. E para isso o editor se vale dessa máquina (o cérebro), que atende às coisas vão interessá-lo. Apaga, filtra, tira o que não se encaixa e fortalece as coisas que se ajustam ao conto que está sendo contado".

Ok, mas onde entra o sorvete nessa história? Bem, Lucas Raspall lembrou que adorava o doce, que era servido como sobremesa nos almoços em família quando ele era mais novo. Mas um dia, por ser um adolescente irritado com a vida, recusou o sorvete dizendo que não gostava dele. A partir daí passou a defender a ideia que não gostava de consumi-lo.

"Todos construímos a nossa identidade baseado em verdades que um dia compramos e depois não questionamos mais, mesmo que os contextos mudem", explica o psiquiatra. "E digo mais: tudo isso acontece sem que a gente se dê conta. A mente editora faz todo esse trabalho sem que a gente perceba".

Não comer por hábito é mais comum que você imagina

Tendo tudo isso em mente, pare e pense: tem algo que você não come simplesmente por não ter experimentado o alimento de novo? Foi o que aconteceu com o produtor carioca Daniel Fialho, de 26 anos, que apenas foi provar frutas e verduras que ele dizia não gostar no ano passado. E olha que sua lista de "alimentos proibidos" era bem grande!

"Eu não comia verduras e frutas", conta. "Tomate e cebola crua até que sim, mas tinha que ser picado. E não comia por causa de textura, basicamente, mas também não gostava do gosto, não descia de jeito nenhum. Podia encher a salada de molho que não adiantava. Alface, então! Aquela crocância dele me incomodava muito e eu não conseguia comer".

E não é só: ele não tomava nem suco da fruta, apenas o de uva - e somente se fosse industrializado. E não existia exceção, com ele chegando a afirmar, algumas vezes, que era alérgico a clorofila apenas para não ser compelido a comer salada. Mas tudo isso mudou no dia que ele resolveu experimentar tudo que dizia não gostar outra vez.

"Eu parei de comer frutas e afins com uns 8 anos", lembra Daniel Fialho. "Hoje em dia tomo todos os sucos mais comuns aqui no Rio (cupuaçu não é um deles, então não tenho como dizer porque não provei de novo). Comecei a mudar meus hábitos aos 25 anos, foram uns 18 anos sem comer coisas do gênero".

Ser contrariado pode gerar uma má relação com a comida

A textura pode ser um fator determinante para uma criança crescer dizendo que não gosta de determinado alimento, quando na verdade o gosto em si não é um problema. Mas é bom lembrar que essa não é a única razão que impede alguém de não comer algo - e aqui não estamos falando do sabor, claro, porque aí sim seria motivo para cortar algo do cardápio.

No caso do estudante de Medicina gaúcho Rodrigo Lautenschlager, de 27 anos, o que não faltavam eram comidas que ele dizia não gostar. E, acredite se quiser, apenas duas eram pelo sabor: espinafre (amargo) e aliche (muito salgado).

"Não comia abóbora pela consistência e abacate porque era obrigado, então acho que era mais uma questão psicológica", conta. "Arroz e feijão também não comia, mas não sei o motivo. Ah, e dobradinha (ou mondongo, como se diz no Sul), que eu não comia pelo aspecto".

Pois é, além da aparência ter sido determinante para ele não comer determinados alimentos, o fato de ser contrariado - ou mesmo obrigado - a comer algo fez com que ele criasse uma rejeição a alguns ingredientes. O abacate, como ele mesmo relatou, é um bom exemplo.

"Minha mãe nunca foi de obrigar a comer nada. Era mais na creche que isso acontecia. Aliás, lá faziam isso, até que um dia eu falei com minha mãe e ela mandou avisar na creche que eu era alérgico", lembra Rodrigo Lautenschlager, rindo.

E, assim como aconteceu com Daniel Fialho, por simplesmente ter a certeza que não gostava de determinados ingredientes o estudante de Medicina passou a maior parte da sua vida sem consumi-los. Ou melhor, comendo apenas nos pratos que ele dizia gostar - que eram, vale frisar, os únicos em que ele provava as comidas que dizia não gostar.

"Só com 20 e poucos anos passei a gostar de verdade de feijão, antes só comia uma vez por ano o que a minha tia avó fazia", diz. "Já o arroz só gostava no sushi, hoje gosto de qualquer forma. Por fim, o mondongo provei pela primeira vez há pouco tempo, por ser uma comida típica daqui, mas tem que ser muito bem feita".

Sempre duvide da sua mente

Após conhecer essas duas histórias, as palavras do psiquiatra argentino Lucas Raspall devem fazer ainda mais sentido, não? Nossa mente é o editor que não pode jamais se contradizer, e que passa anos defendendo um mesmo ponto de vista até que um dia, talvez, você resolva questioná-lo e fazer diferente.

"Por essa maldita mania de ser coerente, o editor termina reforçando o que diz de nós mesmos em vez de buscar uma maneira de mudar e de crescer", diz Lucas Raspall em sua apresentação no TED Talks. "E nós, sem saber de nada, seguimos no piloto automático. Tudo isso que vocês dizem que não podem mudar, que vocês têm que aceitar, não são verdades".

Seja no âmbito alimentar ou não, vale a pena refletir um pouco sobre o que estamos fazendo nesse famoso piloto automático e se é isso mesmo que queremos. A meditação pode, inclusive, ajudar nesse processo, sabia? Esse autoconhecimento é tão importante que o psiquiatra argentino finalizou a sua fala dando um recado que considerou importante a todos os presentes, e que pode ser também na vida de qualquer um:

"Não quero que ninguém saia daqui sem pensar onde está o sorvete do seu conto, porque esta é a única vida que temos. Não dá para deixá-la em consignação a outro. Não dá para sermos meros intérpretes do que a mente nos diz", finaliza Lucas Raspall, antes de comer sorvete no fim de sua apresentação.

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